Quando publiquei o artigo sobre o RadIA 2.15, o projeto já havia deixado de ser apenas uma janela de conversa dentro do Delphi. Aquela versão reunia validação de código, refatoração semântica, diagnóstico do depurador, automação VCL e uma política mais clara para operações capazes de modificar um projeto.
Pouco mais de um mês depois, o número da versão chegou a 2.17.18. Seria fácil contar essa história como uma sucessão de funcionalidades, mas isso esconderia o aprendizado mais importante. O RadIA ampliou o que consegue fazer, porém a mudança mais profunda ocorreu na forma como essas capacidades são testadas, recuperadas quando algo dá errado e ajustadas a partir da experiência de quem usa o Delphi todos os dias.
Entre as tags v2.15.0, de 16 de agosto de 2026, e v2.17.18, de 29 de setembro, o histórico público do projeto registra 206 commits e mudanças em 292 arquivos, com 30.775 linhas adicionadas e 2.278 removidas. Números não medem qualidade por si sós, mas revelam a extensão do trabalho: a evolução alcançou o núcleo agentivo, a integração com a IDE, a interface, a documentação, o instalador e, sobretudo, os testes.
O ponto de partida: o que a versão 2.15 já havia resolvido
O RadIA 2.15 consolidou uma ideia que permanece central: inteligência artificial dentro da IDE só é realmente útil quando consegue compreender o projeto e agir com limites verificáveis. A versão introduziu uma validação unificada de código, refatorações conscientes da estrutura Pascal, inspeção estruturada durante a depuração e um adaptador capaz de observar aplicações VCL em execução.
Naquele momento, o catálogo documentado reunia 185 ferramentas internas. O catálogo da versão 2.17.18 registra 213, mas a diferença de 28 ferramentas conta apenas parte da história. Uma ferramenta nova só cria valor quando o agente sabe escolhê-la, quando o usuário entende o risco da ação, quando o resultado pode ser revisado e quando existem testes que provam seu comportamento no Delphi real.
Por isso, a evolução desde a 2.15 pode ser entendida em três movimentos: aproximar o RadIA do ambiente completo de desenvolvimento, aprofundar o conhecimento especializado sobre projetos Delphi e tornar os fluxos cotidianos mais confiáveis.
A versão 2.16 aproximou chat, terminal e ambiente local
A versão 2.16.0 adicionou um terminal nativo acoplável ao RAD Studio. Não é um terminal desenhado dentro do WebView do chat: ele usa a infraestrutura do Windows para executar processos e mantém sessões integradas à IDE. O resultado pode ser enviado ao chat de forma controlada, e referências a arquivos e linhas podem levar o desenvolvedor de volta ao editor.
Essa aproximação foi importante porque boa parte do trabalho de desenvolvimento não acontece somente no editor. Compiladores auxiliares, Git, gerenciadores de pacotes, CLIs e scripts fazem parte da rotina. Em vez de fingir que o chat substitui essas ferramentas, o RadIA passou a conectá-las em uma jornada comum.
A mesma versão criou uma jornada segura para bancos de dados locais, inicialmente com inspeção de SQLite. O acesso é somente leitura, limitado e sujeito a consentimento. Também houve reforço na recuperação do WebView e na supervisão do motor semântico, com cache persistente, reinicialização controlada e informações de diagnóstico. São mudanças menos visíveis que um botão novo, mas decisivas para um plugin que precisa conviver durante horas com a IDE.
A versão 2.17 trouxe conhecimento especializado com o FireDAC Advisor
O salto funcional da versão 2.17.0 foi o FireDAC Advisor. Em vez de responder genericamente sobre acesso a dados, o RadIA passou a inventariar componentes e relações encontradas em arquivos PAS e DFM, analisar SQL, conferir parâmetros, examinar padrões de transação, observar configuração e apontar riscos de uso entre threads.
O Advisor também consegue comparar as expectativas do código FireDAC com o schema de um banco SQLite local autorizado. A partir dos achados, prepara artefatos como repositories, DataModules, consultas, DTOs e fixtures DUnitX. “Preparar” é uma palavra importante: mudanças são apresentadas para revisão e, quando suportadas, aplicadas com consentimento, verificação do estado original, build, testes e possibilidade de reversão.
Isso representa uma mudança de qualidade na assistência. O agente deixa de trabalhar apenas com texto e passa a combinar código, componentes visuais, metadados do projeto, estrutura do banco e ferramentas da IDE. Ainda existem limites: a inspeção real de banco é restrita ao fluxo local autorizado, e sugestões não substituem a decisão arquitetural da equipe. Mesmo assim, o escopo é muito mais próximo dos problemas encontrados em sistemas empresariais Delphi.

A evolução combinou novas capacidades com um investimento crescente em segurança, recuperação e testes de uso real. Fonte: elaboração própria a partir das releases e do comparativo oficial do repositório.
As revisões 2.17.x transformaram relatos reais em confiabilidade
Depois do FireDAC Advisor vieram dezoito revisões na linha 2.17. Elas não devem ser lidas como dezoito grandes lançamentos. Em sua maioria, são correções e aprimoramentos concentrados em situações concretas que aparecem quando um agente sai da demonstração controlada e entra na rotina de uma IDE.
O chat passou a distinguir melhor perguntas conversacionais de solicitações agentivas. Perguntar “o que é FireDAC?” não precisa abrir um plano nem pedir aprovação. O estado da janela acoplável passou a respeitar tamanho, posição e visibilidade entre sessões. A criação guiada de projetos ficou mais cuidadosa ao lidar com diretórios já existentes, preservar requisitos funcionais e aguardar a indexação antes de consultar o conhecimento do projeto.
Houve também uma correção conceitualmente importante: compilar com sucesso não basta quando o usuário pediu um comportamento específico. Um exemplo usado nos testes foi a criação de uma calculadora com histórico de operações. O requisito passou a ser preservado da conversa até o preview e a geração, e a jornada funcional verifica cálculo, registro e limpeza do histórico quando esse tipo de validação foi solicitado.
Outras revisões eliminaram diagnósticos antigos depois de builds externos bem-sucedidos, corrigiram a criação de implementações a partir de comentários, recuperaram sessões rejeitadas do Codex CLI e protegeram arquivos de configuração das ferramentas de IA contra mudanças sem consentimento explícito. São detalhes diferentes com uma raiz comum: impedir que o sistema declare sucesso quando a evidência disponível não sustenta essa conclusão.
Um agente menos repetitivo e um terminal mais próximo do uso real
As versões 2.17.14 e 2.17.15 trabalharam no custo e na continuidade do modo Agente. Em vez de encerrar mecanicamente ao atingir um limite de passos, a execução passou a usar janelas renováveis quando há progresso verificável. Ao mesmo tempo, uma janela inteira sem avanço continua sendo interrompida para evitar ciclos improdutivos.
O contexto enviado a cada decisão também foi reduzido. Metadados repetidos deixam de ocupar espaço, instruções de aprovação não são reenviadas depois que o plano já foi aprovado e orientações específicas aparecem apenas na jornada que precisa delas. O comparativo entre 2.17.17 e 2.17.18 mostra que a versão atual continua esse trabalho ao reduzir o contexto usado nas decisões e simplificar a validação de alterações preparadas. Para o usuário, o benefício esperado não é “mais raciocínio” como slogan, mas menos repetição, menor desperdício e conclusão mais direta.
O terminal, introduzido na 2.16, também amadureceu. A 2.17.16 trouxe entrada direta para aplicações interativas, teclas de navegação, suporte mais fiel a interfaces de terminal, Unicode, regiões de rolagem e inserção controlada de arquivos e imagens. A 2.17.17 corrigiu conflitos entre atalhos de alternativas de completion e comandos nativos do editor Delphi. Esse tipo de ajuste parece pequeno até o instante em que um plugin captura uma combinação usada há anos pelo desenvolvedor.
A qualidade passou a ser demonstrada por jornadas, não apenas por testes isolados
Na release 2.15.0, o projeto informava 1.301 testes aprovados em cada versão suportada do Delphi. Na release 2.17.17, a publicação registrou 1.457 testes DUnitX em cada alvo, 215 testes web e uma matriz crítica de uso aprovada nas três plataformas oficiais: Delphi 12 Win32, Delphi 13 Win32 e Delphi 13 IDE64.
Mais importante que a contagem é a natureza dessas verificações. O processo passou a testar instalação limpa, atualização, reparo, abertura e encerramento da IDE, persistência da janela, criação de projetos, conflito de diretório, build, execução quando solicitada, depuração e recuperação. A release deixa de ser apenas “o código compilou” e se aproxima de “a promessa pública foi exercitada de ponta a ponta”.
A versão 2.17.18 reforçou a infraestrutura de empacotamento, cálculo de hashes e coleta de evidências de assinatura. Isso não autoriza concluir que toda distribuição anterior ou futura possui assinatura digital; a verificação deve ser feita no arquivo concreto da release. O ponto verificável é que o processo ganhou validações específicas para integridade e assinatura, reduzindo dependências frágeis durante a geração do pacote.
O papel da comunidade nessa evolução
Projetos de ferramenta têm uma dificuldade particular: quem desenvolve conhece profundamente a intenção do recurso, enquanto quem usa encontra imediatamente os atritos que a intenção não mostrou. Um atalho que conflita com o editor, uma janela que reabre quando deveria permanecer fechada ou uma etapa repetida pelo agente são problemas difíceis de perceber olhando apenas para o código.
Quero agradecer a todas as pessoas que testaram o RadIA, relataram comportamentos, questionaram decisões e ajudaram a transformar situações vagas em casos reproduzíveis. Agradeço especialmente ao Carlos Cantu, pela atenção, pela generosidade em compartilhar feedback e pela disposição de olhar o projeto com a experiência de quem conhece profundamente o ecossistema Delphi. Nem toda contribuição chega como commit ou issue pública; muitas vezes, uma boa pergunta é o começo da correção que depois aparece no histórico.
Esse reconhecimento não diminui a responsabilidade técnica de validar cada sugestão. Feedback não é especificação pronta, e uma experiência individual não prova um comportamento geral. O processo saudável é ouvir, reproduzir, definir o resultado esperado, proteger regressões com testes e então publicar. Foi essa sequência que orientou boa parte das revisões desde a 2.15.
O que a versão 2.17.18 representa hoje
O RadIA 2.17.18 não é um ponto final. É um retrato de um projeto que passou a cobrir mais partes do trabalho Delphi sem abandonar a preocupação com consentimento, rastreabilidade e reversão. O terminal e o FireDAC Advisor ampliaram o alcance; as revisões do agente, do chat e do instalador trabalharam para que esse alcance fosse utilizável.
Quem ainda está na 2.15 encontrará mudanças visíveis, mas deve atualizar com o mesmo cuidado usado em qualquer ferramenta integrada à IDE: fechar as instâncias do Delphi, baixar o instalador na release oficial 2.17.18, conferir as evidências publicadas e executar /doctor depois da instalação. As configurações e os fluxos particulares da equipe merecem um teste controlado antes da adoção ampla.
O repositório continua aberto em regyssilveira/RadIA-Plugin. Relatos úteis incluem versão do Delphi, arquitetura da IDE, versão do RadIA, passos para reproduzir, resultado observado e resultado esperado, sem expor código proprietário, credenciais ou dados de clientes.
Se você desenvolve em Delphi, convido você a conhecer o RadIA no GitHub, experimentar o projeto e acompanhar sua evolução. Se o trabalho fizer sentido para você, deixe uma estrela no repositório como uma forma simples de demonstrar apoio e sinalizar interesse. A estrela ajuda a aumentar a visibilidade do projeto e facilita que outros desenvolvedores da comunidade Delphi o encontrem. E, ao testar, compartilhe também suas impressões, dúvidas e problemas reproduzíveis: esse retorno é o que mais ajuda a orientar as próximas melhorias.
Conclusão
Da versão 2.15 à 2.17.18, o RadIA cresceu em capacidade: ganhou terminal integrado, inspeção segura de banco local, FireDAC Advisor e um catálogo maior de ferramentas. Cresceu também em maturidade: aprendeu a preservar melhor os requisitos, reduzir decisões redundantes, recuperar jornadas interrompidas e provar suas promessas em cenários reais do Delphi.
Essa segunda evolução é a mais importante. Uma ferramenta agentiva não se torna confiável porque faz muitas coisas, mas porque sabe quando agir, quando pedir consentimento, quando interromper e como demonstrar que concluiu o que foi solicitado. A comunidade ajudou a revelar essas fronteiras. Meu agradecimento, em especial ao Carlos Cantu, é também um convite: continuem testando, perguntando e mostrando onde o RadIA ainda pode ser melhor.
Referências
BORGES DA SILVEIRA, Régys. RadIA 2.15: validação de código, refatoração semântica, automação VCL e uma camada adicional de segurança. Regys.com.br, 16 ago. 2026. Disponível em: https://regys.com.br/radia-2-15-validacao-de-codigo-refatoracao-semantica-automacao-vcl-e-uma-camada-adicional-de-seguranca/. Acesso em: 29 set. 2026.
SILVEIRA, Régys Borges da. RadIA Plugin: comparação entre v2.15.0 e v2.17.18. GitHub, 2026. Disponível em: https://github.com/regyssilveira/RadIA-Plugin/compare/v2.15.0…v2.17.18. Acesso em: 29 set. 2026.
SILVEIRA, Régys Borges da. RadIA Plugin: repositório oficial. GitHub, 2026. Disponível em: https://github.com/regyssilveira/RadIA-Plugin. Acesso em: 29 set. 2026.
SILVEIRA, Régys Borges da. RadIA 2.15.0. GitHub, 16 ago. 2026. Disponível em: https://github.com/regyssilveira/RadIA-Plugin/releases/tag/v2.15.0. Acesso em: 29 set. 2026.
SILVEIRA, Régys Borges da. RadIA 2.16.0. GitHub, 16 ago. 2026. Disponível em: https://github.com/regyssilveira/RadIA-Plugin/releases/tag/v2.16.0. Acesso em: 29 set. 2026.
SILVEIRA, Régys Borges da. RadIA 2.17.0. GitHub, 17 ago. 2026. Disponível em: https://github.com/regyssilveira/RadIA-Plugin/releases/tag/v2.17.0. Acesso em: 29 set. 2026.
SILVEIRA, Régys Borges da. RadIA 2.17.18. GitHub, 29 set. 2026. Disponível em: https://github.com/regyssilveira/RadIA-Plugin/releases/tag/v2.17.18. Acesso em: 29 set. 2026.
Descubra mais sobre Régys Borges da Silveira
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
Dê-nos sua opinião, seu comentário ajuda o site a crescer e melhorar a qualidade dos artigos.