O lançamento do Delphi 13 consolidou recursos que transformam a maneira como pensamos a arquitetura de software em Object Pascal. Se no passado o Delphi era sinônimo de “RAD rápido mas desorganizado”, hoje, com o amadurecimento dos Generics, Anonymous Methods, Attributes e a robustez das Interfaces, ele se posiciona como uma linguagem de elite para a implementação de padrões de projeto complexos.
Neste artigo inaugural, vamos analisar a transição do “Estilo Legado” para o “Estilo Moderno”, e como os Design Patterns são a ponte para essa evolução.
A Anatomia da Evolução: Do RAD ao SOLID
O Modo Antigo (The Legacy Way)
Por décadas, o padrão “de facto” no Delphi foi o Smart UI (ou, pejorativamente, Fat Forms). Nele, as regras de negócio, validações de banco de dados e até protocolos de comunicação ficavam comprimidos dentro de eventos TForm.btnGravarClick.
- Problema: Acoplamento total. Se você precisar trocar o componente de conexão ou rodar a mesma regra em um serviço Windows (sem GUI), você terá que reescrever tudo.
- Custo: O “Débito Técnico” cresce exponencialmente, tornando o sistema impossível de ser testado automaticamente.
O Modo Moderno (The Clean Code Way)
No Delphi 13, a interface visual é apenas uma “casca” (View). O coração do software reside em classes puras, desacopladas de componentes visuais. Os Design Patterns entram aqui para organizar essa separação. Ao utilizar padrões como Dependency Injection e Strategy, transformamos componentes pesados em abstrações leves e substituíveis.
Recursos Chave do Delphi 13 para Design Patterns
Para aprofundar nos padrões que veremos nesta série, é crucial dominar como o Delphi 13 otimiza essas implementações:
A. Weak References e Gerenciamento de Memória
Com o fim do ARC para plataformas desktop, o gerenciamento manual de memória (Try-Finally) voltou a ser protagonista, mas com auxílios modernos. O uso de [Weak] em referências de interface é vital em padrões como Observer para evitar referências circulares que causam memory leaks, algo que muitos desenvolvedores ignoram ao implementar padrões clássicos.
B. Custom Attributes (Rtti.TAttr)
O uso de Atributos no Delphi 13 permite que padrões como Decorator ou Factory sejam implementados de forma muito mais elegante. Podemos “anotar” uma classe com metadados que o sistema lê em tempo de execução para decidir como instanciá-la, eliminando longos blocos de if-then-else ou case.
C. Generics e Constraints
Os padrões GoF (Gang of Four) originais foram escritos pensando em C++ e Smalltalk. No Delphi 13, utilizamos TList<T> com constraints (where T: class, IInterface). Isso permite que padrões estruturais como o Composite sejam tipos-seguros (Type Safe), evitando erros de cast em tempo de execução.
Aplicação no Dia a Dia: Do Monolito aos Microserviços
A verdadeira prova de fogo de um padrão de projeto não está em exemplos acadêmicos de “Animais que latem ou miam”, mas sim na resolução de problemas de negócio complexos, como integrações de API, persistência de dados e regras de validação fiscal. No Delphi 13, a transição do modo antigo para o moderno segue este fluxo:
A. O Problema da Dependência Direta (Modo Antigo)
No modelo legado, se precisássemos realizar uma consulta de crédito, instanciaríamos o componente de conexão (ex: TRESTClient) diretamente dentro da classe de negócio.
- Impacto: Se o provedor do serviço mudar ou se o Delphi lançar uma biblioteca de comunicação mais performática, você terá que abrir dezenas de Units para fazer o refactoring. Além disso, você não consegue testar sua lógica de negócio sem ter uma conexão real com a internet.
B. A Abstração com Interfaces e o Padrão Adapter (Modo Moderno)
No Delphi 13, aplicamos o padrão Adapter aliado à Injeção de Dependência. Criamos uma interface que define o contrato de comunicação:
type
ICreditService = interface
['{F2A3B4C5-D6E7-48F9-A0B1-C2D3E4F5A6B7}']
function ConsultarCpf(const ACpf: string): TCreditStatus;
end;
A partir daí, criamos “Adaptadores” específicos. Um pode usar o THttpClient nativo do Delphi 13, outro pode usar uma biblioteca legada, e um terceiro pode ser um Mock para testes unitários.
C. Casos de Uso Reais: Transição de Camada de Dados
Um uso clássico do dia a dia no ecossistema Delphi é a transição de componentes de acesso a dados.
- Estilo Antigo: O
TFDQueryestá espalhado por todo o projeto. O código é refém do FireDAC. - Estilo Clean com Patterns: Utilizamos o padrão Repository. A lógica de negócio pede ao repositório um
TUser, e o repositório decide como buscar isso no banco.- No Delphi 13, podemos usar Generics para criar repositórios base:
TRepository<T = class>, reduzindo drasticamente a repetição de código (Boilerplate) e garantindo que sua regra de negócio seja agnóstica ao banco de dados.
- No Delphi 13, podemos usar Generics para criar repositórios base:
D. Gerenciamento de Memória e Ciclo de Vida
Um diferencial crítico no Delphi 13 é como lidamos com a destruição desses objetos padronizados. Ao usar padrões baseados em interfaces para desacoplamento, aproveitamos o Reference Counting. No entanto, em hierarquias complexas (como no padrão Composite), o desenvolvedor moderno deve estar atento ao uso do atributo [Weak] para evitar referências circulares — um detalhe técnico que separa o código júnior do código arquitetado em nível sênior.
O Caminho da Série
Nesta jornada pelo regys.com.br, não apenas mostraremos o código, mas faremos o refactoring de cenários reais. Vamos cobrir:
- Criacionais: Como instanciar objetos sem dar um
Createdireto no código consumidor (evitando o acoplamento). - Estruturais: Como montar o “quebra-cabeça” das classes para que o sistema seja flexível.
- Comportamentais: Como fazer os objetos conversarem sem que um precise conhecer a estrutura íntima do outro.
O objetivo final é que seu código Delphi seja tão limpo, testável e moderno quanto qualquer projeto de ponta em C# ou Java, aproveitando a performance nativa que só o Delphi nos entrega.
Referências
FLICK, Stefan. Design Patterns with Delphi: Build enterprise-grade applications with modern Delphi and the right design patterns. 1. ed. Birmingham: Packt Publishing, 2024.
GAMMA, Erich et al. Padrões de Projeto: Soluções reutilizáveis de software orientado a objetos. 1. ed. Porto Alegre: Bookman, 2000.
MARTIN, Robert C. Arquitetura Limpa: O guia do artesão para estrutura e design de software. 1. ed. Rio de Janeiro: Alta Books, 2019.
TEIXEIRA, Marcello. Delphi High Performance: Build fast Delphi applications using concurrency, parallel programming and memory management. 1. ed. Birmingham: Packt Publishing, 2018.
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