Se existe algo que tira o sono de qualquer desenvolvedor Delphi — seja ele júnior ou sênior — é o fatídico Access Violation intermitente em produção ou aquele Memory Leak silencioso que derruba o servidor após dias de execução.
Com a chegada do Delphi 13 e a modernização da linguagem, temos ferramentas cada vez mais robustas. No entanto, a complexidade das aplicações também aumentou. Felizmente, hoje temos um novo aliado no nosso cinto de utilidades: a Inteligência Artificial Generativa (LLMs).
Neste artigo, não vamos falar sobre como pedir para a IA escrever código, mas sim como utilizá-la para realizar uma autópsia de erros. Vamos explorar como interpretar logs de ferramentas como EurekaLog, madExcept ou o nativo report do FastMM, transformando stack traces crípticos em diagnósticos lógicos precisos.
O Conceito de Debugging Assistido
O processo tradicional de debugging de um erro em produção envolve:
- Receber o log.
- Olhar a pilha de chamadas (Call Stack).
- Abrir a IDE, ir para a linha indicada.
- Tentar imaginar o estado da memória naquele momento.
O Debugging Assistido insere a IA entre o passo 2 e 3. Modelos de linguagem (como GPT-4, Claude 3.5 ou Gemini) são excepcionalmente bons em reconhecimento de padrões. Eles conseguem cruzar a informação da exception com a lógica do código (se fornecida) e apontar a causalidade com uma precisão assustadora.
Preparando o Terreno: O Que a IA Precisa?
Para que a análise seja eficaz, “jogar o erro” de qualquer jeito no chat não funciona. Você precisa fornecer contexto. Um prompt estruturado para debugging deve conter:
- A Persona: Defina que a IA é um especialista em Delphi/Windows API.
- O Erro: A classe da exceção e a mensagem.
- O Stack Trace: A pilha de chamadas (o “mapa do crime”).
- O Código (Opcional, mas recomendado): O método onde o erro ocorreu.
Ferramentas de Captura
Assumimos aqui que você utiliza uma ferramenta de tratamento de exceções global.
- madExcept / EurekaLog: Essenciais para obter o call stack com números de linha em produção.
- FastMM5: O gerenciador de memória padrão (e suas versões completas) para detecção de leaks.
Cenário 1: O Temido Access Violation (c0000005)
Vamos imaginar um cenário onde você recebe um log de um cliente. O erro é um EAccessViolation.
Passo 1: O Log Bruto (Exemplo madExcept)
exception class : EAccessViolation
exception message : Access violation at address 007452A1 in module 'Project1.exe'. Read of address 00000000.
main thread ($1a4c):
007452a1 +041 Project1.exe uVendasController 145 +3 TMinhaClasse.ProcessarVenda
007451dd +01d Project1.exe uVendasController 110 +2 TMinhaClasse.FinalizarPedido
0064a3b2 +0a2 Project1.exe uMainForm 250 +5 TfrmMain.btnSalvarClick
...
Passo 2: Construindo o Prompt
Abra sua IA de preferência e utilize a seguinte estrutura:
Prompt: “Atue como um especialista em Delphi 13 e debugging de baixo nível. Estou analisando um EAccessViolation em uma aplicação VCL.
O Erro: Read of address 00000000 (Null Pointer Dereference). O Contexto: O erro ocorre no método
ProcessarVenda.Stack Trace: [Cole aqui o stack trace acima]
Trecho de Código provável (ProcessarVenda):
procedure TMinhaClasse.ProcessarVenda(Pedido: TPedido); begin FLog.Write('Iniciando venda ' + Pedido.Numero); // Linha 145 if Pedido.Total > 1000 then AplicarDesconto(Pedido); end;Analise a causa lógica mais provável baseada na linha do erro e no tipo de acesso.”
Passo 3: A Análise da IA
A IA provavelmente identificará o seguinte:
- O erro é
Read of address 00000000, indicando que você tentou acessar um objeto que estánil. - O stack aponta para a linha 145.
- Na linha 145, temos:
FLog.Write(...)ePedido.Numero. - Conclusão da IA: “Existem duas possibilidades lógicas aqui: ou o objeto
Pedidopassado como parâmetro énil, ou o objeto internoFLognão foi instanciado (estánil) antes de ser chamado.”
Isso economiza minutos preciosos de investigação. A IA aponta a instância culpada.
Cenário 2: Analisando Memory Leaks
Leaks são mais difíceis porque o erro não acontece onde o problema está (no Free), mas sim onde ele começou (no Create esquecido).
Passo 1: O Relatório (FastMM)
Ao fechar a aplicação, o FastMM gera um arquivo de log:
--------------------------------2025/12/10 14:30:22--------------------------------
A memory block has been leaked. The size is: 64 bytes
This block was allocated by thread 0x1A4C, and the stack trace (return addresses) at the time was:
405432 [System.pas][System][@GetMem][4524]
4076A1 [System.Classes.pas][System.Classes][TStringList.Create][5200]
007542 [uRelatorios.pas][uRelatorios][TGeraRelatorio.Execute][85]
008210 [uMain.pas][uMain][TfrmMain.btnRelatorioClick][120]
...
Passo 2: O Prompt para Análise de Ciclo de Vida
Aqui, o objetivo é pedir para a IA analisar o escopo e a propriedade (ownership) do objeto.
Prompt: “Estou depurando um Memory Leak no Delphi 13 reportado pelo FastMM. O objeto vazado é uma
TStringList.Stack de Alocação: O objeto foi criado em
uRelatorios.pas, métodoTGeraRelatorio.Execute, linha 85.Código do Método:
procedure TGeraRelatorio.Execute; var Lista: TStringList; begin Lista := TStringList.Create; // Linha 85 Lista.Add('Dados'); ProcessarLista(Lista); end;Por que este objeto está vazando? Analise o fluxo de exceções ou falhas de
try..finally.”Passo 3: A Análise da IA
A IA irá apontar imediatamente a violação do padrão RAII (Resource Acquisition Is Initialization) ou a falta do bloco de proteção.
Resposta típica: “O objeto Lista é criado na linha 85, mas não existe um bloco try..finally garantindo sua liberação. Se ProcessarLista ocorrer com sucesso ou falha, o objeto permanece na memória. Além disso, como é uma variável local, a referência é perdida ao fim do método, tornando impossível liberá-la depois.”
Sugestão de correção fornecida pela IA:
procedure TGeraRelatorio.Execute;
var
Lista: TStringList;
begin
Lista := TStringList.Create;
try
Lista.Add('Dados');
ProcessarLista(Lista);
finally
Lista.Free;
end;
end;
Dicas Avançadas para Delphi 13 e IA
1. Interfaces e Referências Circulares
Se o seu leak envolve TInterfacedObject, cole o código das duas classes envolvidas e pergunte à IA: “Existe alguma referência circular (strong reference cycle) entre estas duas interfaces que impediria o RefCount de chegar a zero?”. A IA é excelente em detectar onde você esqueceu de usar [weak] (atributo introduzido em versões recentes e vital no Delphi 13).
2. Sanitize seus Logs!
Atenção: Nunca cole logs contendo dados sensíveis de clientes (CPFs, Connection Strings, Chaves de API). Antes de passar o log para a IA:
- Substitua nomes de servidores por
SERVER_DB. - Substitua dados de negócio por
[DATA]. - Mantenha apenas a estrutura técnica (nomes de units, classes e métodos).
3. O Contexto “Full Stack”
Se o erro envolve uma DLL externa ou uma chamada de API, informe isso no prompt. Ex: “Este método é chamado via Callback de uma DLL em C++”. Isso muda a forma como a IA analisa convenções de chamada (stdcall vs cdecl) e alinhamento de memória.
Conclusão
O uso de IA no processo de debugging não substitui o conhecimento profundo da linguagem Delphi, mas atua como um “par de olhos” incansável. Ao combinar ferramentas poderosas como EurekaLog/madExcept com a capacidade analítica de uma IA, você reduz drasticamente o tempo gasto entre a detecção do erro e a correção (MTTR).
Em um ambiente de desenvolvimento moderno, saber “perguntar para a IA” é tão importante quanto saber configurar um breakpoint.
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